É impressionante como a história tem praticidade em fabricar ídolos e mitos. Ao estudar ao longo desses 8 anos de academia me deparei com livros e mais livros que engrandeciam homens e mulheres, como se eles fossem deuses. O que falar de Tiradentes, Zumbi e Princesa Isabel? Pois bem, na história da Igreja não é diferente. Cometemos o triste erro de reproduzir mitos e construir heróis para as próximas gerações, omitindo, ou até mesmo apagando sua humanidade.
A Bíblia, livro-referência para nós cristãos, deveria ser usada como modelo para biografias e histórias de homens, denominações e legados. Pois quando retrata tais coisas, exalta e engrandece, mas não deixa de expôr as falhas e os erros humanos. O que falar de Abraão? O pai da fé, mas que não poupou esforços em mentir sobre sua esposa, e apressar a promessa de Deus, com Ismael. E Moisés? O grande legislador e profeta, mas também conhecido no Egito como assassino palaciano. E o grande Rei Davi? Vencedor de gigantes, grande salmista, o homem segundo o coração de Deus, mas também adúltero e homicida. Poderia falar de Jacó, Jonas, Gideão, Sansão e até Paulo que falava como “fora de mim”, e que não poupava esforços na hora de brigar, seja pela tradição, como foi com Pedro, ou por orgulho, como foi com Barnabé.
Quando olho pra história da Igreja e me deparo com a vida dos reformadores, tenho um certo frisson, pois os livros teimam em omitir a vida desses grandes homens. É indispensável falar aqui da suprema importância de Lutero e Calvino para a Igreja Protestante, são eles os pais desse movimento. Mas não posso falar de Lutero sem falar do seu envolvimento com a nobreza alemã, e sua liderança no genocídio camponês. E Calvino? O reformador da predestinação tão conivente a burguesia e aos seus interesses econômicos, e que não obstante foi responsável pela execução de dezenas de pessoas que se opunham as suas rígidas doutrinas.
Não quero com isso dizer que temos que exaltar erros, mas eles precisam ser contados. A importância e o legado de homens e mulheres não são apagados por isso. Apenas quero pontuar a humanidade deles também.
Hoje acabei de ler o livro: “NEOPENTECOSTALISMO – A história não contada” do Bispo Walter McAlister, que é uma breve biografia em defesa do pai, que é acusado de ser precurssor desse movimento, e me deparei com um livro heroico, tendencioso e um tanto omisso. Onde o fundador da Igreja Nova Vida é tido como um mito. Não se fala dos seus erros, não se aponta seu autoritarismo e frieza, mas se fala dos seus atos heroicos.
Não consigo ler biografias heroicas, ou livros em que o autor prefere omitir seu pecado e erros, com medo de futuras gerações tomarem conhecimento(ouvi isso de um pastor essas dias). Temos que aprender com a Bíblia e pôr a cara na janela, nos igualarmos, mostrarmos pras pessoas que não somos super-heróis, e que o pecado servirá para exaltar a graça que superabundará em nossas vidas.
Me lembro aqui de 3 homens que vieram a público reconhecer o erro, mesmo que isso lhe custasse o prestígio por toda a vida. O primeiro é o grande evangelista Jimmy Swaggart, que veio a público, em lágrimas pedir perdão. Em segundo, o grande líder que admiro, o Rev. Caio Fábio, que após um erro, veio, também, a público pedir perdão, explicar-se e romper com seu passado. Por fim, o irmão Davi Silva que após anos de mentira, confessou seu pecado, arrependeu-se e veio a público pedir perdão por um erro que marcou pessoas do mundo inteiro. Portanto, se a pessoa é referência, líder, clero, e comete erros, porque esconder ou omitir? Ele deve sim explicações aos seus. E não medo ou receio de falar dos erros, a não ser que estes ainda estejam sendo praticados.
É impossível afirmar um ministério sem erros. A questão é que nós hierarquizamos erros e pecados, e aplicamos as disciplinas, mas em todos os ministérios existem erros, simplesmente porque existem pessoas. A diferença é expor os erros, sem a coleira organizacional ou doutrinária e exaltar a Deus que ergue o pecador e o torna mais alvo que a neve.
Sim, é importante mostrar o homem por trás do mito, porque assim veremos Deus, que a despeito dos erros e limitações humanas usa poderosamente homicidas, mentirosos, medrosos e adúlteros, levando-os a se renderam a poderosa Mão do Soberano. O nome disso é Graça. Mas fica uma dica: Se não reconhece erros, falhas e limitações, como enxergar a Graça de Deus? Onde enxergar a Graça na auto-suficiência humana? Portanto não basta apenas cair do cavalo, é preciso ficar cego por longos dias e depois perceber o quanto importa padecer por Cristo.
Existe um homem por trás de todo mito, e um Deus Soberano que faz o homem se tornar grande.
Pelos Santos de Deus e pelo Cordeiro.